Aviso de mobilização
Passaram pelo meu nome e eu era um número
- menos que a folha seca de um herbário.
Colheram-no com mãos de zelo e gelo;
escreveram-no, sem mágoa, num postal.
Convite a que morresse. .. mas por quê?
Convite a que matasse. .. mas por quem?
Ó vago amanuense, ó apressado
e súbito verdugo, que te ocultas
numa rubrica rápida, ilegível,
que dirás tu do meu e de outros nomes,
que dirás tu de mim e de outros mais,
no Dia do Juízo já tão próximo
- que dirás tu de nós, se nem tremeu,
na rápida rubrica, a tua mão?
Bem sei que a tua mão só executa;
mas para além do ombro a ti pertences.
Bem puderas chorar, ter hesitado. . .
- A mancha de uma lágrima bastara
para dar um sentido a esta morte
a que a tua indiferença nos convoca!
David Mourão Ferreira
Tempestade de Verão
quarta-feira, 17 de março de 2010
Aviso de mobilização
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terça-feira, 16 de março de 2010
Desenhar uma flor
Desenhar uma flor
Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas.
A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros, in “O Regresso ou o Homem Sentado – III parte”
segunda-feira, 15 de março de 2010
E por vezes
Ontem não coloquei nada novo propositadamente, para deixar amadurecer este último poema, no qual considero muito importante reflectir.
E por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro da noite não os meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão Ferreira
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sábado, 13 de março de 2010
Gozo Sonhado é Gozo, ainda que em Sonho
Gozo Sonhado é Gozo, ainda que em Sonho
Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.
Ricardo Reis, in "Odes"
O que este poema nos diz é verdade, e extremamente importante.
Recentemente, esse potencial do sonho (e aqui sonho refiro-me àquilo que toda a gente vivencia de noite, na fase REM) tem vindo a ser usado como terapêutica e como forma de melhorar o quotidiano. Falo de perder peso fazendo exercício nos sonhos, conseguir deixar de fumar, ou até melhorar a coordenação dos membros.
Estas realizações baseiam-se na descoberta fruto de investigações (mais ou menos recentes, mas actuais) em que se notou que as zonas do cérebro em actividade correspondiam àquilo que o sujeito imaginava fazer. Isso também é notório em sujeitos que estão sob aparente coma (ligação em inglês).
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Desnoções e algibeiras
(de http://www.kazukuta.com/ondjaki/ha_prendisajens.html)desnoções & algibeiraspara ser grilohá que ter algibeirasonde também caibam silêncios.ser sorrateiroespreitando entre dois fios de relva.saber fazer uma teia invisívelonde o infinito se armadilhe.encarar o universo comdemasiada intimidade– a modos que quintal.saber que:as estrelas encarecemde carinhoe brilham para mais desanonimato;sonetar com roncos de gargantamas desminar rebentamentos no coração.para ser grilohá que ter desnoções.viver que:há só uma distanciaçãozinhaentre apalmilhar um quintale acomodar estrelas num abraço.
Ondjaki
quinta-feira, 11 de março de 2010
As palavras
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
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quarta-feira, 10 de março de 2010
Sê paciente; espera
Ontem falhei a minha mensagem habitual.
Para os que notaram a minha falta, dedico-lhes este poema:
Para os que notaram a minha falta, dedico-lhes este poema:
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 8 de março de 2010
Entre o Sono e Sonho
Entre o Sono e Sonho
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
domingo, 7 de março de 2010
Sonho noutro sonho
Um poema de Edgar Allan Poe, Dream Within a Dream (original aqui), declamado por Isabel Sá Lopes. A tradução é de Margarida Vale de Gato (em "Edgar Allan Poe - Obra Poética Completa"), a melhor que encontrei em Português. Obrigado ao comentador anónimo que me indicou a fonte da tradução.
Sonho noutro sonho
Aceita em tua fronte este meu beijo!
E, neste instante em que te deixo ,
Deixa que ao menos te confesse
Que não é ilusão , se te parece
Que minha vida em sonhos se entretece ;
Mas, se acaso a esperança fugidia
Se some numa noite ou num só dia ,
Numa visão...ou não...será por isso
Menos certo o seu sumiço ?
Tudo o que é visto , tudo o que é suposto
É só um sonho noutro sonho posto
Eis-me aqui entre o bramido
Do mar que junto à costa é sacudido
E guardo na mão fechada
Uns grãos de areia dourada ...
Tão escassos !... mas num segundo
Dos dedos vão para o fundo ,
E eu choro , ah , desabalado !
Oh , Céus ! Porque os não aperto
Com um laço mais esperto ?
Oh , Céus ! Por que não posso eu salvar
Um só...das garras desse ímpio mar?
Tudo o que é visto,tudo o que é suposto
É só um sonho noutro sonho posto ?
Aceita em tua fronte este meu beijo!
E, neste instante em que te deixo ,
Deixa que ao menos te confesse
Que não é ilusão , se te parece
Que minha vida em sonhos se entretece ;
Mas, se acaso a esperança fugidia
Se some numa noite ou num só dia ,
Numa visão...ou não...será por isso
Menos certo o seu sumiço ?
Tudo o que é visto , tudo o que é suposto
É só um sonho noutro sonho posto
Eis-me aqui entre o bramido
Do mar que junto à costa é sacudido
E guardo na mão fechada
Uns grãos de areia dourada ...
Tão escassos !... mas num segundo
Dos dedos vão para o fundo ,
E eu choro , ah , desabalado !
Oh , Céus ! Porque os não aperto
Com um laço mais esperto ?
Oh , Céus ! Por que não posso eu salvar
Um só...das garras desse ímpio mar?
Tudo o que é visto,tudo o que é suposto
É só um sonho noutro sonho posto ?
Fonte: blogue Escutando a Isabel
sábado, 6 de março de 2010
Ainda sabemos cantar
Dispensa explicações ou introdução. O poema diz tudo.
Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.
Eugénio de Andrade
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sexta-feira, 5 de março de 2010
É importante criar desobjectos
tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento. não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.era de difícil manejo – mas funcionava.
Cito dois poemas dele, para mostrar o potencial positivo das coisas/palavras más:
“o início”
(retirado de http://www.kazukuta.com/ondjaki/espanador_de_tristezas.html)
segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância perdido no tempo. escorreguei no tempo.nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a aldeia de ynari];adormeci na aldeia.ouvi um barulho – era a lesma a sorrir.o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele coleccionava no quarto ou no coração das mãos.abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.
(retirado de http://sosleitoresmurca.blogspot.com/2010/02/receita-para-que-nao-murchem-nem-se.html)O Obsceno, A Obscenaera que: obsceno, ou obscena, eram palavras bonitas.adoro apreciar um corpo pela obscenidade - fica bonitoaté excitar a comoção.já vi uma boca obscena que era um poema vivo.uma mão obscena já me desconcentrou a existência.línguas obscenas trazem paz ao caos de um orgasmo.mais até:uma vez, uma nuvem obscena fez o arco-íris corar.o céu ficou lindo.
Sugestão de actividade
Aqui, sugiro a quem quiser, uma actividade: escolher uma palavra de significativo negativo e, através da magia da poesia, dar-lhes um novo significado, um significado positivo, ou vice-versa. Isto para compreendermos o relativas que são as palavras, e para testarmos a nossa maleabilidade.
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quinta-feira, 4 de março de 2010
Terror de te amar
A propósito de:
um poema de Sophia de Mello Breyner:
É tão difícil amar amando,(excerto de um poema de Luís Severino, que pode encontrar aqui)
É difícil amar acreditando
Que amar na sua condição de amor
Não trará sofrimento ou dor
um poema de Sophia de Mello Breyner:
Terror de te amar
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Céptico por sistema
Céptico por sistemaO excerto transcrito descreve perfeitamente as consequências da ânsia desenfreada na busca dos defeitos. Fonte: Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, recolhidos por Ramiro Calle, e editados em Portugal pel'A Esfera dos Livros.
Gabava-se do seu cepticismo. (...) Achava-se o mais experiente e sagaz investigador espiritual, uma velha raposa a quem nada nem ninguém conseguia convencer. Mas um dia, de repente, apercebeu-se de quão vazio estava espiritualmente e de quanto conhecimento real lhe faltava. «Como é possível», perguntou-se, «se passei toda a minha vida a investigar?»
Desolado, soube (...) de um ioguim que habitava numa gruta nos Himalaias. Foi visitá-lo. Falou-lhe do tempo que passara a indagar e o critério que seguira. O ioguim disse-lhe:
- A dúvida ajuda-nos a prosseguir, mas onde nos pode levar a dúvida céptica e sistemática? Quero que amanhã te apresentes perante mim com um quilo de pêssegos. (...)
Assim que o Sol começou a despontar, o investigador céptico já estava junto do ioguim, incapaz de disfarçar a sua angústia e impaciência.
- Espalha os pêssegos no chão - disse o ioguim.
O investigador assim fez.
- Agora põe de lado os pêssegos podres e fica com eles.
O investigador tirou os pêssegos em mau estado e viu como o ioguim se punha a comer os bons.
- Pobre tolo! - exclamou com sarcasmo. - Tanta ênfase puseste em descobrir os pêssegos podres que deixaste de ver os bons.
terça-feira, 2 de março de 2010
O faz um poeta?
Por que é que os poetas o são?
PorqueUm poeta não se mascara, não calcula, não se abriga, mas sim revela todo o seu íntimo nas suas poesias.
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner
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Sophia de Mello Breyner
segunda-feira, 1 de março de 2010
Uma vez, enchi a minha mão de bruma
| Sugiro que o façamos, que enchamos as nossas mãos de bruma, e aproveitemos a sua maleabilidade para tornar consistentes os nossos sonhos. |
Uma vez, enchi a minha mão de bruma |
Uma vez, enchi a minha mão de bruma.
Quando a abri, a bruma era uma larva.
Voltei a fechar a mão, e então era um pássaro.
E fechei e abri novamente a mão,
e na sua palma encontrava-se um homem
de rosto triste, virado para o céu.
Mais uma vez fechei a mão,
e quando a abri já só havia bruma.
Mas escutei uma canção de uma doçura extrema.
Kahlil Gibran Areia e Espuma |
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